O Sá
I
Fora um boêmio outrora, E, para atenuar o seu passado Vadio e dissoluto, Costumava a dizer: - O meu tributo Paguei - Era outro agora:
Tranqüilo e sossegado, Muito bem comportado, Tal qual Pêro Botelho Que se faz ermitão depois de velho, Ou como certas cortesãs que, ao cabo De uma vida de gozos e loucuras, Julgando assim ficar menos impuras, Voltam a Deus o que não quis o diabo.
Ele, entretanto, ainda não era idoso;
Da montanha da vida não chegara Ao cume pavoroso:
Cinqüenta anos não tinha, e - coisa rara! -
Não obstante a existência que levara, Estava já grisalho, mas não tinha Esses pés de galinha A que no mundo pouca gente escapa, E que o aspecto dão à nossa cara De castanha ou de mapa.
É que a pele, que estica, Livre de sulcos mais ou menos fica, E o Sá (era esse o nome Do herói dessa novela)
Se havia sido em moço um magricela E padecido fome, Teve, afinal, sossego Quando, volvidos quase os quarenta anos, Num suculento emprego, Fez boas digestões, dormiu bons sonos, E entrou, como entra um pássaro, na muda.
Tanto corpo deitou, engordou tanto, Que era um deus-nos-acuda, E até causava a toda a gente espanto.
Os amigos de outrora Não no reconheciam, Quando sereno por acaso o viam Medindo os passos pela rua afora, Respirando virtude E vendendo saúde.
No entanto, que passado!
Que existência infeliz de aventureiro!
Ator, contínuo, sacristão, soldado, Negociante, jogador, ficheiro, Grande "pianista" de primeira classe, Tudo o Sá tinha sido;
Não houve profissão que não tentasse, Sem haver em nenhuma se mantido, Afinal - tudo cansa! - encontrou rumo, E assentou no lugar, que lhe foi dado, De fiscal do consumo, Graças a um deputado, Seu companheiro antigo, Que por milagre inda era seu amigo.
Numa província aonde o levara a sorte, Já não sei se do sul ou se do norte, O Sã gostara de uma pequerrucha Que, apesar de gorducha, Não deixava de ter seus atrativos.
Olhos travessos, petulantes, vivos, E magníficos dentes.
- Não são precisos mais ingredientes Para alimento de uma paixãozinha, E esses a nossa provinciana os tinha.
Ela perdera ambos os pais; morava Em casa da madrinha Que com olhos de mãe a vigiava, - Tanto que Sá tentou, como um demônio, Possuir a pequena Sem a preliminar do matrimônio Que, a dar-lhe ouvidos, não valia a pena;
Mas a madrinha, vigilante hiena, Pondo a cidade inteira em alvoroço, Cortou-lhe o mau intento, E, como estava apaixonado, o moço Teve que sujeitar-se ao casamento.
Mas na manhã seguinte, Por negregado acinte O Sá (que a tudo um bárbaro se afoita)
Da cidade abalou sem dizer nada, Abandonando a esposa de uma noite, Casada e não casada!
Nunca se soube ao certo Se ele achou descoberto Aquilo que supunha inexplorado, Ou se foi simplesmente Um injusto, um malvado.
Que numa forca não padeceria Castigo suficiente.
O caso é que daquele Dia em diante - angustioso dia, Cuja lembrança os nervos arrepela!
- Ela não teve mais notícias dele, Nem ele as teve dela.
II
Da janela do quarto em que morava Entre nuvens de fumo Que num cachimbo sórdido aspirava, O fiscal do consumo Namoriscava uma mulher magrinha, Que nas lides caseiras avistava No interior da cozinha De um sobrado do qual só via os fundos.
Não sei por que, a vizinha, Entre panelas, caldeirões imundos, Tachos e caçarolas, Impressionou-o a ponto De o fazer dar às solas, Tonto, ainda mais tonto Que quando requestava a moça imbele Que se casou com ele.
À vizinha sorria Aos gatimanhos que lhe o Sá fazia, E não tardou que uma correspondência Epistolar houvesse...
Desimpedida a mísera não era:
"Deus a livrasse que o doutor soubesse...
Tinha ciúme de fera!
Entretanto, a explorava, Tornando-a, coitadinha, Numa espécie de escrava, Metida na cozinha."
O Sá pensou, com certo fundamento, Que, na impossibilidade De recorrer a novo casamento Pois não sabia, na realidade, Qual era o seu estado, Se viúvo ou casado, Precisava arranjar, da sua idade, Uma mulher solteira Que quisesse ser sua companheira;
Escreveu à vizinha cozinheira E na carta lhe disse Que de casa saísse E fosse procurá-lo, Pois lhe daria muito mais regalo.
Ela, que estava farta Do tal doutor, mal recebeu a carta, Por aqui é o caminho:
Logo trocou de ninho!
O Sá ficou pasmado e boquiaberto, Vendo agora, de perto, Que era a boa vizinha Sua mulher que emagrecido tinha, - E ao mesmo tempo ela reconhecia Naquele novo amante O esposo magro que engordado havia!
Que cena interessante!
Ela contou a sua história triste, E ele, o cínico, achou-lhe certo chiste!
Repelida dos seus, da sua terra, Onde esteve na berra, De mão em mão andara, Até que a sorte avara Deu com ela no Rio de Janeiro.
E aqui, depois de ser do mundo inteiro, Caiu nas mãos do tal doutor mesquinho, E agora, loucamente, Às seduções cedendo de um vizinho, Vinha neste encontrar - fado inclemente!
O marido que outrora De maneira tão vil se fora embora!
III
Indivíduos na terra os há capazes Das mais feias e estranhas aventuras;
As duas criaturas Celebraram as pazes, E o Sá, que no impudor não tem segundo, Deu este exemplo ao mundo De um cidadão casado, Co'a legitima esposa amasiado.
(Contos em Verso)
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